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RIVERA, Amanda Athayde Linhares Martins; DOMINGUES, Juliana Oliveira; SOUZA, Nayara
Mendonça Silva e. 10 anos da lei 12.529/2011: os avanços no debate que resultaram na
incontornável interface entre concorrência e trabalho. Revista de Defesa da Concorrência,
Brasília, v. 10, n. 1, p. 40-61, 2022.
https://doi.org/10.52896/rdc.v10i1.993
no seu escopo, i.e. os profissionais visados (LINDSAY; STILSON; BERNHARD, 2016, p. 12).
Nos EUA, em 1957, o caso Union Circulation Company v. FTC tratou da contratação de vende-
dores de assinaturas de revistas porta-a-porta, cujo trabalho era intermediado por agências de ter-
ceirização. Os casos interdisciplinares entre direito do trabalho e direito antitruste se tornaram mais
emblemáticos ao envolverem seis empresas de alta tecnologia (Adobe, Apple, Google, Intel, Intuit e
Pixar).
20
Em adição ao que foi apresentado por estas autoras anteriormente (ATHAYDE; DOMINGUES;
SOUZA, 2018, p. 73-75), menciona-se que na Espanha, em 2010 e 2011 a autoridade de concorrência
condenou dois carteis que envolviam acordos de não contratação: um no mercado de empresas
transportadoras de mercadorias e outro na venda de produtos para cabeleireiros tradicionais (AUTO-
RIDADE DA CONCORRÊNCIA DE PORTUGAL, 2021, p. 23-24).
Em 2012, novamente nos EUA, a eBay também foi processada por acordos de “no-poach” ou
“no cold-calling” celebrados com a Intuit
21
(U.S. v. eBay, Inc.). No acordo informal realizado entre exe-
cutivos sêniores, entre 2006 e 2011, as empresas acordavam não recrutar empregados uns dos outros,
mesmo se procurados pelos funcionários da concorrente. Esses acordos não eram públicos, nem
mesmo para os empregados das duas empresas (UNITED STATES, 2014). Após as ações propostas pelo
DOJ, várias ações privadas de reparação de danos contra as empresas de tecnologia (Adobe, Apple,
Google, Intel, Intuit e Lucasfilm) se seguiram, tendo se concluído que os acordos secretos combatidos
pelos casos prejudicaram a competição entre empregados qualificados dessas empresas, diminuindo
sua mobilidade. Intuit, Lucasfilm e Pixar celebraram acordos no valor de 20 milhões de dólares, e as
demais empresas fizeram acordo no montante de 415 milhões de dólares para a reparação de danos
causados pela conduta praticada (LINDSAY; STILSON; BERNHARD, 2016, p. 6-7).
Em 2015, uma empresa de suporte de TI (Gemicro) entrou em acordo com a autoridade de
concorrência da Croácia para encerrar um processo em que era acusada de abuso de posição domi-
nante. Segundo a denúncia, a empresa só firmava contratos de prestação de serviços caso seus con-
tratantes aceitassem obrigações suplementares em que eram proibidos de contratar ex-funcionários
da Gemicro que atualmente estivessem trabalhando em seus concorrentes. (OCDE, 2019, p. 2).
Em 2017, o DOJ investigou as empresas Knorr-Bremse (“Knorr”) e Westinghouse Air Brake Te-
chnologies (“Wabtec”) pelos acordos de não contratar profissionais do mercado de suprimentos fer-
20 Os casos, genericamente intitulados “high-tech employees”, tratam da investigação iniciada pelo DOJ com relação
a cinco acordos bilaterais que supostamente impediam as empresas de tecnologia envolvidas de contratar funcionários
extremamente qualificados no setor de tecnologia umas das outras (United States v. Adobe Systems, Inc., et al.) (UNITED
STATES, 2011). Segundo a investigação iniciada em 2010, não havia qualquer justificativa razoável de colaboração entre as
empresas sem o conhecimento de seus empregados. (NEIDERMEYER, 2018, p. 3). Nestes casos, não houve alegação de que os
produtos ou serviços oferecidos pelas empresas competiam entre si, mas sim que os acordos resultaram em diminuição das
oportunidades de carreiras dos profissionais de alta tecnologia e, por conseguinte, impactavam em seus salários de modo não
razoável (LINDSAY; STILSON; BERNHARD, 2016, p. 6). No ano de 2010, o DOJ abriu nova investigação contra as empresas Lucasfilm
e Pixar (United States v. Lucasfilm Ltd.). As empresas acordaram entre si, sem informar aos seus empregados, que (i) evitariam
oferecer empregos a funcionários uma da outra; (ii) informariam eventual oferta de trabalho a um empregado da concorrente
e (iii) não tentariam cobrir uma possível contraproposta. Tais acordos foram entendidos como restrições horizontais entre
competidores diretos no mercado de trabalho, que deveriam ser considerados ilegais per se. O caso foi encerrado em 2011,
com um acordo entre o DOJ e Lucasfilm, impedindo-a de celebrar acordos anticompetitivos com consequências no mercado de
trabalho (UNITED STATES, 2010).
21 A Intuit não foi processada no caso em questão por já ter assinado acordo para cessar a prática de no-poach em 2011
no caso United States v. Adobe Systems.