Interoperabilidade como vetor concorrencial: um paralelo entre a Lei do Mercado Digital da União Europeia e a Lei Brasileira de Sistemas de Pagamentos

Conteúdo do artigo principal

Natalie Giacomazzi Viccari

Resumo

Contexto: o artigo parte da compreensão das singularidades das plataformas digitais de múltiplos lados e dos ecossistemas digitais para entender como a interoperabilidade, sob a ótica do Direito da Concorrência, pode constituir um fator determinante na promoção da contestabilidade e da inovação em mercados digitais. Ao mesmo tempo, reconhece que a ausência de normas claras sobre a interoperabilidade gera insegurança jurídica e pode comprometer a efetividade da política concorrencial. Um desafio para agências reguladoras e autoridades está em compreender até que ponto restrições de interoperabilidade por questões de segurança ou privacidade são de fato legítimas ou constituem condutas abusivas baseadas no bloqueio a concorrentes.


Objetivo: compreender e conceituar a interoperabilidade em seu aspecto técnico e como instrumento pró competitivo. Analisar como a União Europeia elencou a interoperabilidade como obrigação concorrencial na Lei do Mercado Digital (DMA, em inglês) traçando um paralelo com a previsão da interoperabilidade pela Legislação Brasileira de Sistemas de Pagamentos. Examinar como o Ministério da Fazenda, por meio de seu relatório sobre plataformas digitais, sugeriu recomendações voltadas ao aprimoramento do modelo concorrencial vigente, especialmente no que se refere à interoperabilidade.


Método: o estudo foi desenvolvido a partir de pesquisa bibliográfica, documental, legislativa e soft law.


Conclusões: a interoperabilidade é um importante mecanismo para a regulação das plataformas e ecossistemas digitais e deve ser um componente das próximas reformas regulatórias e legislativas no Brasil. Medidas que assegurem ou incentivem a implementação da interoperabilidade são fundamentais em mercados com grandes externalidades de rede, além de sua detalhada previsão normativa. No entanto, o protagonismo da interoperabilidade como vetor concorrencial depende não apenas de sua previsão normativa, mas principalmente de seu grau de coercibilidade e da capacidade institucional de implementá-la.

Detalhes do artigo

Seção

Revista de Defesa da Concorrência

Biografia do Autor

Natalie Giacomazzi Viccari, Universidade de São Paulo (USP) – São Paulo/SP, Brasil

Advogada licenciada. Servidora Pública Federal do Ministério Público Federal. Assessora Jurídica do Representante do Ministério Público Federal junto ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (MPF/CADE). Especialista em Defesa da Concorrência e Direito Econômico na Fundação Getulio Vargas. Especialista em Ciências Penais pela Universidade do Sul de Santa Catarina. Aluna especial da Pós-Graduação em Direito da Universidade de São Paulo (USP), na disciplina “Direito da Concorrência e Plataformas Digitais”, sob orientação do Prof. Roberto Castellanos Pfeiffer (2025).

Como Citar

Interoperabilidade como vetor concorrencial:: um paralelo entre a Lei do Mercado Digital da União Europeia e a Lei Brasileira de Sistemas de Pagamentos. Revista de Defesa da Concorrência, Brasília, v. 14, n. 1, p. 164–182, 2026. DOI: 10.52896/rdc.v14i1.1965. Disponível em: https://revista.cade.gov.br/index.php/revistadedefesadaconcorrencia/article/view/1965. Acesso em: 30 jun. 2026.

Referências

BANCO CENTRAL DO BRASIL (BCB). Resolução BCB nº 150, de 6 de outubro de 2021. Consolida normas sobre os arranjos de pagamento, aprova o regulamento que disciplina a prestação de serviço de pagamento no âmbito dos arranjos de pagamento integrantes do Sistema de Pagamentos Brasileiro (SPB), estabelece os critérios segundo os quais os arranjos de pagamento não integrarão o SPB e dá outras providências. Brasília, DF: Banco Central do Brasil, 2021. Disponível em: https://www.bcb.gov.br/estabilidadefinanceira/exibenormativo?tipo=Resolu%C3%A7%C3%A3o%20BCB&numero=150. Acesso em: 11 jun. 2025.

BANCO CENTRAL DO BRASIL (Bacen). Diagnóstico do sistema de pagamentos de varejo no Brasil. Brasília: Banco Central do Brasil, 2005. Disponível em: https://www.bcb.gov.br/content/estabilidadefinanceira/Publicacoes_SPB/Diagnostico%20do%20Sistema%20de%20Pagamentos%20de%20Varejo%20no%20Brasil.pdf. Acesso em: 2 jun. 2025.

BANCO CENTRAL DO BRASIL (Bacen). Relatório sobre a Indústria de Cartões de Pagamentos Adendo Estatístico 2010. Brasília: Banco Central do Brasil, 2010. Disponível em: https://www.bcb.gov.br/content/estatisticas/spbadendos/SPBCARTEST10-Relatorio_Cartoes_Adendo_2010.pdf. Acesso em: 2 jun. 2025.

BRASIL. Lei nº 12.865/2013, de 9 de outubro de 2013. Autoriza o pagamento de subvenção econômica aos produtores da safra 2011/2012 de cana-de-açúcar e de etanol que especifica e o financiamento da renovação e implantação de canaviais com equalização da taxa de juros; [...]; e dá outras providências. Brasília, DF: Presidência da República, 2013. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2013/lei/l12865.htm. Acesso em: 11 jun. 2025.

BRASIL. Ministério da Fazenda. Secretaria de Reformas Econômicas. Plataformas digitais: aspectos econômicos e concorrenciais e recomendações. Brasília, DF: Ministério da Fazenda, 2024. Disponível em: https://www.gov.br/fazenda/pt-br/central-de-conteudo/publicacoes/relatorios/sre/relatorio-plataformas-consolidado.pdf. Acesso em: 15 jun. 2025.

COMPETITION & MARKETS AUTHORITY (CMA). Online platforms and digital advertising: Market study final report. Londres: Competition & Markets Authority (CMA), 2020. Disponível em: https://assets.publishing.service.gov.uk/media/5fa557668fa8f5788db46efc/Final_report_Digital_ALT_TEXT.pdf. Acesso em: 18 maio 2025.

CONSELHO ADMINISTRATIVO DE DEFESA ECONÔMICA (Cade). Cadernos do Cade: Mercado de Instrumentos de Pagamento. Brasília: Conselho Administrativo de Defesa Econômica, 2019. Disponível em: https://cdn.cade.gov.br/Portal/centrais-de-conteudo/publicacoes/estudos-economicos/cadernos-do-cade/mercado-de-instrumentos-de-pagamento-2019.pdf. Acesso em: 1 jun. 2025.

CONSELHO ADMINISTRATIVO DE DEFESA ECONÔMICA (Cade). Cadernos do Cade: Mercados de Plataformas Digitais. Brasília: Conselho Administrativo de Defesa Econômica, 2023. DOI: https://doi.org/10.52896/dee.cc2.023. Disponível em: https://x.gd/1qbBB. Acesso em: 13 abr. 2025.

CONSELHO ADMINISTRATIVO DE DEFESA ECONÔMICA (Cade). Concorrência em Ecossistemas Digitais de Dispositivos Móveis (iOS e Android): Relatório Técnico: Audiência Pública. Brasília: Conselho Administrativo de Defesa Econômica, 2025. Disponível em: https://cdn.cade.gov.br/Portal/assuntos/noticias/2025/PNUD%20-%20Relat%C3%B3rio%20Final%20Audi%C3%AAncia%20P%C3%BAblica%20-%20revMarcus.pdf. Acesso em: 2 fev. 2026.

CRÉMER, Jacques; MONTJOYE, Yves-Alexandre de; SCHWEITZER, Heike. Competition Policy for the Digital Era. Brussels: European Commission, 2019. Disponível em: https://op.europa.eu/pt/publication-detail/-/publication/21dc175c-7b76-11e9-9f05-01aa75ed71a1/language-en#maincontentarea. Acesso em: 17 maio 2025.

EUROPEAN COMMISSION. Shaping Europe’s Digital Future. Luxemburgo: European Union, 2020. Disponível em: https://commission.europa.eu/system/files/2020-02/communication-shaping-europes-digital-future-feb2020_en_4.pdf. Acesso em: 20 maio 2025.

EUROPEAN UNION. Regulation (EU) 2022/1925 of the European Parliament and of the Council of 14 September 2022 on contestable and fair markets in the digital sector and amending Directives (EU) 2019/1937 and (EU) 2020/1828 (Digital Markets Act). Luxemburgo: EUR-Lex, 2022. Disponível em: https://eur-lex.europa.eu/eli/reg/2022/1925. Acesso em: 12 jul.

EVANS, David S. Some empirical aspects of multi-sided platforms. Review of Network Economics, v. 2, n. 3, p. 1-19, 2003. DOI: https://dx.doi.org/10.2139/ssrn.447981. Disponível em: https://x.gd/EMVNPQ. Acesso em: 18 maio 2025.

EVANS, David S.; SCHMALENSEE, Richard. The antitrust analysis of multi-sided platform businesses. Cambridge: National Bureau of Economic Research, 2013. Working Paper No. 18783. DOI: 10.3386/w18783. Disponível em: https://x.gd/Hq2zW. Acesso em: 20 maio 2025.

JACOBIDES, Michael G.; CENNAMO, Carmelo; GAWER, Annabelle. Externalities and complementarities in platforms and ecosystems: From structural solutions to endogenous failures. Research Policy, v. 53, n. 1, 2024. DOI: https://doi.org/10.1016/j.respol.2023.104906. Disponível em: https://x.gd/2f8at. Acesso em: 20 jun. 2025.

JACOBIDES, Michael G.; LIANOS, Ioannis. Ecosystems and Competition Law in Theory and in Practice. Industrial and Corporate Change, v. 30, n. 5, 2021. DOI: https://doi.org/10.1093/icc/dtab061. Disponível em: https://x.gd/lf3qq. Acesso em: 14 jun. 2025.

LEMLEY, Mark A.; JOHNSON, Eric E.; RILEY, Christopher M. Stanford Interdisciplinary Working Group on Interoperability: Report and Preliminary Recommendations. Stanford: Stanford University, 2023. DOI: https://dx.doi.org/10.2139/ssrn.4412862. Disponível em: https://x.gd/odKpZ. Acesso em: 14 jun. 2025.

ORGANIZATION FOR ECONOMIC CO-OPERATION AND DEVELOPMENT (OECD). Data portability, interoperability and digital platform competition: OECD Competition Committee discussion paper. Paris: Organization for Economic Co-operation and Development (OECD), 2021. Disponível em: https://www.oecd.org/competition/data-portability-interoperability-and-digital-platform-competition.pdf. Acesso em: 20 maio 2025.

PFEIFFER, Roberto Augusto Castellanos. Plataformas Digitais, Direito Concorrencial e Dados Pessoais. São Paulo: Singular, 2025.

RILEY, Chris. Unpacking interoperability in competition. Journal of Cyber Policy, v. 5, n. 1, p. 94-106, 2020. DOI: https://doi.org/10.1080/23738871.2020.1740754. Disponível em: https://x.gd/DOJXZ. Acesso em: 19 maio 2025.

ROCHET, Jean-Charles; TIROLE, Jean. Platform competition in two-sided markets. Journal of the European Economic Association, v. 1, n. 4, p. 990-1029, 2003. DOI: https://doi.org/10.1162/154247603322493212. Disponível em: https://x.gd/F1r0l. Acesso em: 5 abr. 2025.

SCHMALENSEE, Richard. Why is Platform Pricing Generally Highly Skewed? Review of Network Economics, v. 10, n. 4, art.1, 2011. DOI: 10.2202/1446-9022.1274. Disponivel em: https://www.degruyterbrill.com/document/doi/10.2202/1446-9022.1274/html. Acesso em: 15 maio. 2025.

SIMCOE, Timothy; WATSON, Jeremy. Forking, Fragmentation and Splintering. Boston: Boston University, 2019. DOI: https://dx.doi.org/10.2139/ssrn.2862234. Disponível em: https://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=2862234. Acesso em: 1 jul. 2025.

STIGLER CENTER FOR THE STUDY OF THE ECONOMY AND THE STATE. Stigler Committee on Digital Platforms: Final Report. Chicago: University of Chicago Booth School of Business, 2019. Disponível em: https://www.chicagobooth.edu/-/media/research/stigler/pdfs/digital-platforms---committee-report---stigler-center.pdf. Acesso em: 18 maio 2025.